Um jornal que fez diferença

O jornalista-empresário Cícero Cattani relembra os bons tempos da Última Hora, jornal que marcou época e foi responsável pela formação de toda uma geração de jornalistas

Cícero Cattani
Cícero Cattani

Sempre na vanguarda. Nem mesmo o twitter escapou deste veterano do jornalismo paranaense, que começou a carreira na lendária Última Hora e esteve presente nos momentos marcantes da história dos principais jornais de Curitiba, até obter seu próprio jornal. Uma trajetória poucas vezes repetida – dificilmente um jornalista chega a ser proprietário de um veículo de comunicação.

Cícero Cattani conseguiu. O primeiro foi o Correio de Notícias em sua segunda versão – houve três. Ele recebeu o jornal do antigo proprietário apenas assumindo o passivo – Silvio Name estava mais interessado em se livrar do Correio do que fazer dinheiro com a publicação. Coisas da política. O segundo e atual veículo de Cícero, o Hora H, já foi criado por ele mesmo, há cerca de 20 anos.

O jornalista faz questão de falar com mais vagar sobre a versão local da Última Hora por considerá-la um marco, talvez o mais importante da história do jornalismo paranaense, por vários motivos. Um deles: foi o maior em circulação da história do Paraná, e vivia exclusivamente da venda avulsa; hoje, passados 45 anos de seu desaparecimento, seus números ainda não foram alcançados.

A Última Hora foi inovadora no formato, na diagramação, no conteúdo; e foi responsável pela formação de toda uma geração de jornalistas. Era um jornal prestador de serviços essencialmente – a coluna chamada Para o povo foi recordista em leitura; voltada a resolver os problemas da cidade obteve tal importância que passou a ser rastreada pela prefeitura, que se pautava nela para agradar a população.

 

O pagador de promessas

Cícero Cattani era praticamente um iniciante quando se tornou correspondente da Última Hora em Paranaguá, a primeira sucursal aberta no interior do Paraná. Surpresa? Nada mais óbvio para um jornal que apoiava a luta sindical, uma vez que o movimento dos portuários era dos mais fortes e influentes naqueles tempos conturbados que precederam o golpe de 64. A edição curitibana da Última Hora circulou entre 1960 e 1964.

O jovem Cícero Cattani, na redação do jornal Última Hora, que ele chegou a dirigir
O jovem Cícero Cattani, na redação do jornal Última Hora, que ele chegou a dirigir

Assim, Cícero participou de uma cobertura que revela bem o perfil do jornal que se fazia, popularesco e sensacionalista, mas com alguma sofisticação, como faz questão de esclarecer. Foi ele o jornalista que recebeu o cortejo da versão local do ‘pagador de promessas’ criado na própria redação em Curitiba. O filme de Anselmo Duarte havia acabado de ganhar a Palma de Ouro em Cannes quando um homem, fanho, chegou à redação e foi convencido a caminhar até a Igreja de Nossa Senhora do Rocio com uma cruz nas costas, tal qual o personagem de Leonardo Vilar faz para pagar uma promessa.

Foi quase uma semana de vendas sensacionais. Equipes do jornal seguiram o suposto pagador de promessas de Curitiba a Paranaguá, escrevendo reportagens pelo caminho, o que atraiu a atenção de muitos, causando comoção popular entre os incautos.

O homem, é claro, seguia o roteiro pré-escrito pelos jornalistas e avançava em sua peregrinação de acordo com os horários e necessidades de fechamento da edição. Para causar maior impacto, ele foi detido na entrada da cidade, para se adequar ao horário e acabou por pernoitar, ora vejam, justamente na zona de meretrício. Foi disputado a tapa pelas mulheres, conta Cícero – afinal, havia se transformado numa personalidade nos últimos dias. O que deu o que falar, mais ainda.

Mas nada que prejudicasse o momento. Com cara de ressaca, ele entrou na cidade de forma triunfal, aplaudido em todo o trajeto até a igreja, onde recebeu a chave da cidade, entregue pelo prefeito Joaquim Tramujas.

Inspiração em filmes parece ter sido uma constante na redação da Última Hora. Afinal, ali trabalhava a nata do jornalismo curitibano, mais bem paga que seus colegas dos outros jornais. “A montanha dos sete abutres”, outra página do sensacionalismo jornalístico interpretada por Kirk Douglas no cinema, também teve sua versão local, quando uma criança caiu num buraco…

 

A redação ocupava uma sala minúscula no Edifício Asa e era a mais cara da cidade; os salários correspondiam aos de São Paulo

 

VIP

A Última Hora não tinha amarras com a sociedade paranaense. “Escrachava” fotos de gente conhecida em situações embaraçosas, filhos de políticos ou importantes empresários eram fotografados dirigindo bêbados… Ao menos, era democrático. Mas o que alimentava o jornal, segundo Cícero, eram os escândalos homossexuais; milagreiros, curas fantásticas, histórias de santos… crimes de grande repercussão.

Da política, o jornal não escapou. A linha editorial era ditada pelo Rio, imprimida por Samuel Wainer, que havia criado o jornal para apoiar Getúlio Vargas. Naquele início dos anos 60, era até militante no apoio ao governo Jango e aos sindicatos. “O jornal criou mecanismos para se comunicar com esse público”, conta Cícero. Havia uma coluna dedicada ao sindicalismo, feita por Peri de Almeida; e outra dedicada aos militares, escrita por Walmor Weiss, que também era sargento.

“Tínhamos a orientação de dar apoio às massas trabalhadoras e o jornal se tornou o centro de convergência de todas as lideranças, do pessoal da esquerda, do Partido Comunista”, relata Cícero. O PC tinha até o poder de indicar funcionários para o jornal. Um exemplo foi Milton Ivan Heller, um curitibano de origem alemã, olhos azuis, que prestou serviços ao partido – no Rio, fazia comícios em portas de fábrica, em cima de caixotes; seu ponto era a fábrica Tecidos Bangu; na construção da Klabin no Paraná chegou a trabalhar como operário.

Por bons serviços prestados, se mudou para Curitiba e, depois de rápida passagem pelo O Dia, acabou na Última Hora por indicação do partido. “Embora tenha grandes qualidades pessoais e seja um ótimo jornalista e escritor”, salienta Cícero.

A ligação entre o jornal e os portuários era tão forte que, durante uma greve dos jornalistas, eles ameaçaram parar o Porto de Paranaguá para apoiar os jornalistas. A linha era a mesma quando se tratava de assuntos nacionais. Já em assuntos estaduais…

Um acordo por baixo dos panos poupava de críticas ou denúncias o governador Ney Braga. E para não chocar demais os leitores, alguns secretários do governo eram transformados em boi de piranha. Mas tudo combinado. Ney Braga indicava os setores que deviam ser privilegiados e os que ele liberava para o ataque. E em rodízio, para não atrapalhar a carreira de ninguém.

A Última Hora tinha então lançado uma prática que viria a se tornar, lamentavelmente, a mais usual nas relações entre os jornais e o poder no Paraná. “O Ney inaugurou, com a Última Hora, os acertos sem identificar a origem da fonte pagadora”, conta. Era propaganda invisível do governo. Com essa sutileza, foi a primeira vez. O dinheiro saía das estatais da época, mas não se submetia à fiscalização do Tribunal de Contas.

Os outros jornais tinham de publicar matérias de interesse do governo porque faturavam em cima disso. E recebiam diretamente do Departamento de Comunicações: entregavam uma fatura de acordo com a centimetragem de publicações favoráveis ao governo.

Na campanha eleitoral de 1985 Cícero com Luiz Geraldo Mazza, Mussa José de Assis e Roberto Requião, no jornal Correio de Notícias
Na campanha eleitoral de 1985 Cícero com Luiz Geraldo Mazza, Mussa José de Assis e Roberto Requião, no jornal Correio de Notícias

 

Recado para Jango

A história também passou pela redação da Última Hora de Curitiba. O jornal havia chegado na esteira das estradas abertas pelo presidente Juscelino Kubitschek – a BR-116, que liga Curitiba a São Paulo, acabara de ser construída. Impressa em São Paulo, a edição chegava a Curitiba por volta das 10 horas da manhã, quando todos os jornais locais já haviam circulado. Ainda assim, vendia mais que a soma de todos os demais. E era um jornal de apenas 10 páginas. “O que se persegue hoje, o jornal-síntese, já era feito então”, relata Cattani.

Durante a campanha da legalidade, do então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, as comunicações estavam bloqueadas entre São Paulo e Porto Alegre. Cícero conta que a redação de São Paulo ligava para Curitiba, que rebatia para Porto Alegre. O comando militar da região, fiel a Goulart, também não conseguia se comunicar com o 3o Exército. O general Rondon ia, então, à redação para falar com seus pares.

Mas a matéria fresquinha e pronta, dentro de casa, a Última Hora não podia publicar – “repassávamos as informações para outros jornais”. No Estado do Paraná, por exemplo, mandávamos para o José Augusto Ribeiro, que depois se mudou para São Paulo.

No centro dos acontecimentos nacionais, Samuel Wainer pediu, certo dia, que a redação de Curitiba dissesse ao ainda vice-presidente Jango Goulart que não se deixasse levar pela catilinária de Tancredo Neves, que estava indo ao seu encontro. Diante do resultado da história, “é evidente que Tancredo foi mais convincente que Samuel Wainer”, brinca.

 

Redação na kombi
Com Jango, dias antes da Revolução de 64: o presidente queria informações porque suspeitava que o governador Ney Braga estivesse ao lado dos conspiradores, como de fato estava
Com Jango, dias antes da Revolução de 64: o presidente queria informações porque suspeitava que o governador Ney Braga estivesse ao lado dos conspiradores, como de fato estava

Dirigida por Carlos Coelho, a redação da Última Hora ocupava uma sala minúscula no Edifício Asa, no centro de Curitiba. Mas era a redação mais cara da cidade; os salários correspondiam aos de São Paulo, já que eram regidos pelo sindicato paulista. Pagava mais que o dobro aos jornalistas e exigia dedicação exclusiva. O que não era nada difícil. Os repórteres locais quase sempre tinham dois empregos para poder se sustentar com alguma dignidade.

Lá trabalhavam, por exemplo, Walmor Marcelino, depois autor de teatro e escritor; Enéas Faria, depois senador; Maurício Fruet, depois prefeito de Curitiba. Na reportagem policial atuava Maurício Távora, que mais tarde seria presidente do Teatro Guaíra; na crônica política, o hoje cineasta Sílvio Back. Tato Munhoz da Rocha, ex-secretário de estado na gestão Jaime Lerner, fazia a coluna de turfe, e estavam lá os jornalistas Fábio Campana, também secretário de Estado; Adherbal Fortes de Sá Junior, ultimamente diretor da TV Bandeirantes; e os repórteres esportivos Vinícius Coelho e Nelson Commel. Luiz Geraldo Mazza era chefe de reportagem.

Cattani avalia que houve uma involução no jornalismo curitibano. Durante os quatro anos de atuação em Curitiba, a Última Hora foi feita aqui e impressa em São Paulo, “sem qualquer desses mecanismos modernos de comunicação”. Era um jornal de vanguarda, “exemplo de jornal confessional”, como explica.

O horário de fechamento era às 16 horas. A produção era colocada num malote e levada ao aeroporto para ser entregue a qualquer passageiro que se dispusesse a levá-lo até o aeroporto de São Paulo. Lá, era esperado por um motorista uniformizado. No final da tarde, quando se completava a ligação telefônica (pedida horas antes), também se completava a edição, com as informações de última hora, literalmente.

Essa rigidez nos horários não podia ser furada, sob pena de inviabilizar a edição. Assim, Vinícius Coelho, que durante um tempo cobriu a Assembleia Legislativa, escrevia suas matérias dentro da kombi a caminho do aeroporto.

Por motivos óbvios, a Última Hora deixou de circular no dia 13 de maio de 1964. Cerca de 20 jornalistas foram indiciados em Inquérito Policial Militar e Cícero Cattani, um deles, ficou até 1969 impedido de exercer a profissão. Não havia proibição explícita, mas os editores temiam a contratação dos indiciados, que ficaram estigmatizados.

Cícero Cattani se orgulha de ter contratado as primeiras mulheres a trabalhar na imprensa paranaense – Terezinha Cardoso, na Tribuna do Paraná; e Malu Maranhão, a primeira a escrever sobre esportes no Estado, segundo o jornalista. O seu jornal, conta, foi o primeiro a manter um site na internet, o Hora H News, e, desde março, manda seus torpedos pelo twitter, “que dá respostas rápidas”. “Me divirto com ele”.

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