Steinberg, o Marginal

Imagem: Reprodução/livro Reflexos e Sombras
Imagem: Reprodução/livro Reflexos e Sombras

De Saul Steinberg, disse Millôr Fernandes num chat promovido pelo UOL em 1998, na idade da pedra lascada da internet brasileira: “Saul Steinberg é o maior artista plástico do século 20. Não convém compará-lo com artistas menores como Cézanne, Mondrian, Paul Klee. Ah, ia me esquecendo: Picasso”.

Esta entusiasmada opinião não é fruto de uma idiossincrasia do genial cartunista, escritor, dramaturgo e tradutor brasileiro. Bem ao contrário, é apenas mais uma entre centenas de outras, sempre elogiosas, opiniões de artistas e críticos de arte de todo o mundo sobre o trabalho de Saul Steinberg.

De si mesmo Steinberg dizia ser um escritor que desenhava em vez de escrever. É praticamente o mesmo o que escreveu o respeitado crítico Harold Rosemberg: “Steinberg é um escritor de imagens, um arquiteto da fala e do som, um desenhista de reflexões filosóficas”.

Nascido na Romênia em 1914, Saul Steinberg estudou Filosofia e Letras durante pouco mais de um ano na Universidade de Bucareste.
No livro Reflexos e Sombras, em que narrou suas memórias para o escritor italiano Aldo Buzzi, um grande amigo de toda a vida, Steinberg comparou sua infância e adolescência na Romênia “mais ou menos equivalente com a de ter sido negro no estado do Mississipi”.
Em sua memória, Bucareste surge como uma cidade estranha, iluminada por lampiões que funcionavam à base de querosene, o que deixava as pessoas, que vendiam o óleo em barris, com um cheiro que afastava todo mundo.

Imagem: Reprodução/livro Reflexos e Sombras
Imagem: Reprodução/livro Reflexos e Sombras

“De vez em quando certos cheiros que não sinto desde criança retornam, não ao nariz, como um cheiro propriamente dito, mas ao cérebro do nariz. Cheiros vagos e precisos ao mesmo tempo: cheiro de outono; de certas lojas; cheiro de começo de inverno, de início do frio: o primeiro fogo em casa, as luzes a partir das cinco da tarde. A estufa de metal, acesa pela primeira vez, tinha um cheiro peculiar, também porque a superfície fora untada para evitar a ferrugem. E sempre o cheiro do lampião a querosene.”

Ele lembra de ver, pelas ruas da cidade, muitas moças vindas do interior, ainda intocado pela mundanidade, que vinham trabalhar em busca de uma vida melhor, mas passavam a ser tratadas como escravas ou arrebanhadas por trapaceiros que as levavam para a prostituição. Algumas delas se suicidavam encharcando o corpo com querosene e riscando um fósforo.

Quando mudou-se para a Itália, em 1933, com 19 anos, foi morar em Milão, onde estudou arquitetura no Regio Politecnico.
Estudando arquitetura que Steinberg começou a se interessar por desenho. Muitos anos depois, em dezembro de 1965, numa entrevista à revista Life, ele recordaria:
“Sempre tive gosto por desenhar, mas sem muito talento. Só descobri minha habilidade quando meu primeiro desenho foi publicado em Milão. Levei mais ou menos dez minutos para desenhar, mas quando o vi impresso na revista, fiquei horas olhando, hipnotizado. Percorria devagar cada uma das linhas. É bem provável que estivesse admirado menos com o desenho e mais comigo mesmo”.

Este primeiro desenho, assim como – logo a seguir – muitos outros, foram publicados numa revista chamada Bertoldo, editada na época pela Rizzoli, que dava seus primeiros passos antes de se tornar um dos maiores grupos editoriais da Europa.

A história da publicação destes primeiros desenhos foi narrada de outro modo por Steinberg numa outra entrevista, em 1986: “Fiz este primeiro desenho e mandei pelo Correio – não, não mandei, fui até lá, até a editora e o deixei com o porteiro, um porteiro de verdade, uniformizado […] Dois dias depois o desenho estava na revista. Fui até lá e disse: `Este aqui fui eu quem fiz´. Eles disseram: `Ah, ótimo, vá até o caixa, faça mais´. E me pagaram. Com isso resolvi o problema mais imediato, mas não foi só, comecei a receber cartas de fãs, assim, de cara. Virei um grande sucesso”.

Há controvérsias. Na realidade foi só após o fim da guerra, depois de várias tentativas, quando finalmente conseguiu imigrar para os Estados Unidos e iniciar sua colaboração para a mais cool publicação cultural americana – a revista New Yorker– é que Steinberg se tornou um grande sucesso.

A partir daí são incontáveis os números de exposições em museus e galerias de todo o mundo, de publicações nas mais prestigiosas revistas e a impressão de dezenas de livros.
Particularmente para nós, brasileiros, há algumas curiosidades na carreira deste genial artista. Para conseguir o visto de entrada e permanência nos Estados Unidos, Steinberg teve a ajuda de dois irmãos – Victor e Cesare Civita – que o conheceram na Itália, na época da Rizzoli, e que, mais tarde, fundariam a Editora Abril na Argentina e no Brasil.

Deste contato com os Civita, além do visto de entrada nos EUA, resultou a primeira capa de uma revista feita por Steinberg, desenhada em 1941 para o primeiro número da Sombra, revista editada no Rio de Janeiro e que pretendia, conforme texto de abertura do poeta Augusto Frederico Schmidt, “fixar o lado elegante e civilizado do Brasil”. Além do trabalho de Jean Manzon editando a fotografia, Sombra tinha, entre seus colaboradores, Mário de Andrade, Stefan Zweig e Vinicius de Moraes.

Imagem: Reprodução/livro Reflexos e Sombras
Imagem: Reprodução/livro Reflexos e Sombras

O desenho feito por Steinberg apresenta, em primeiro plano, uma pessoa de perfil, tomando um sorvete e, ao fundo, um homem deitado sob a sombra de vários guarda-sóis. Quase totalmente em preto e branco, com poucos detalhes coloridos, o desenho era um típico exemplo das modernas tendências das artes gráficas da época.

Mas talvez o episódio mais marcante das relações do artista com o Brasil tenha sido a exposição organizada em São Paulo, em 1952, no MASP, por Pietro Maria Bardi, diretor do museu, e por sua mulher, a arquiteta Lina Bo Bardi, que também estudara arquitetura no Reggio Politecnico de Milão e fora colega de Steinberg.

Preocupado que a crítica brasileira, por desconhecimento, pudesse estranhar uma mostra de um “simples caricaturista” nas dependências de um “museu de arte com A maiúsculo”, Bardi redigiu vários press releases e materiais de divulgação da exposição, em que procurou realçar a importância “artística” do trabalho de Steinberg.

Num dos folhetos escreveu: “O Museu de Arte apresentará, a partir do próximo dia 18, uma exposição de Saul Steinberg, o poeta da caricatura, o observador mais agudo produzido pela arte contemporânea”.

Steinberg consolidou sua fama mundial com uma série de trabalhos publicados em todos os idiomas e em milhões de exemplares, que formamuma das visões mais autênticas do espírito contemporâneo. Com seu desenho, Steinberg escreveu páginas divertidas, e ao mesmo tempo melancólicas, sobre a sociedade e acontecimentos desses últimos quinze anos. Suas caricaturas estão se tornando o poema da ironia.

Steinberg soube colher o ridículo em todas as coisas inúteis, em todas as ambições erradas e vaidades deformadas. Inventou um mundo novo, mediante o mero julgamento de seu próprio mundo. Inventou as lágrimas, aquelas pérolas suspensas nos olhos tristes das pessoas que parecem símbolos antiquíssimos de ternura e emoção. Inventou flores, florezinhas, folhas, como uma vegetação de fábula maliciosa. Inventou os óculos agudos como telescópios e cegos como túneis, que são o símbolo da miopia humana. Inventou todo um mundo triste, mas humano.

Junto à obra dele, apresentará seus trabalhos – como já o tem feitomuitas vezes – Hedda Sterne, a esposa de Steinberg, pintora da vanguarda dos Estados Unidos. Artista absolutamente paradoxal, por sua íntima aderência ao objeto real, que encontrou na máquina, nas maquinarias do mundo industrial moderno um objeto perturbador, incompreensível, prestes sempre a enfrentar uma metamorfose que nunca se realiza.

Máquina tremenda, obsedante. Sobre essas máquinas ambíguas, a pintora exerce recursos pictóricos, encontrando às vezes visões de uma realidade alucinadora.
Pouco, ou quase nada, pode ser acrescentado de melhor nesta perfeita análise da obra de Steinberg.

O casal de artistas veio ao Brasil – chegaram um dia antes da abertura da exposição – e aproveitaram a viagem para conhecer várias cidades, como Aparecida do Norte, Rio de Janeiro, Petrópolis, Salvador, Belém, Recife e Manaus. Sabe-se que Steinberg fez muitos rascunhos e anotações, preenchendo pelo menos três cadernos de desenho. No total, a viagem ao Brasil deve ter durado pouco mais de quatro semanas.

O que durou muito mais foi a influência do trabalho de Steinberg na geração dos anos 1960 de cartunistas brasileiros, entre os quais destacam-se Millôr, Ziraldo, Claudius, Jaguar, Borjalo e Fortuna. Claro que cada um destes artistas absorveu a seu modo a influência do romeno em seus respectivos trabalhos, mas, todos, sem exceção, citam Steinberg como sua principal referência e inspiração.

Morto em 1999, Saul Steinberg foi um dos mais originais e criativos artistas do século 20. Por ter optado pelo desenho e ter por base o papel, não é reconhecido e valorizado como outros artistas que optaram pela pintura e pelas telas. Mas nenhum outro artista como ele nos deixou, em desenhos maravilhosos, uma generosa visão do mundo em que viveu, o das grandes cidades americanas, com seus enormes edifícios, avenidas, automóveis, postos de gasolina, aviões, anúncios luminosos, praças e monumentos. Desenhou também, como nenhum outro, as pessoas em situações de perplexidade diante de desfiles de moda, paradas militares e uma infindável galeria de personagens míticos como cowboys, índios, militares, madames e seus animais de estimação.

Não há porque alongar este texto. A minúscula parte da maravilhosa obra de Saul Steinberg, que pode ser vista ilustrando estas páginas, é muito mais eloquente.

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Imagem: Reprodução/livro Reflexos e Sombras

 

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Imagem: Reprodução/livro Reflexos e Sombras

 

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Imagem: Reprodução/livro Reflexos e Sombras

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