De volta para a América o grande retorno de Gertrude Stein

Quando o navio SS Champlain (um dos mais sofisticados navios de transporte dos anos 20) chegou a Nova York, sete dias depois de partir do porto de Le Havre, na França, em 17 de outubro (pois este era o tempo que durava uma viagem do Velho para o Novo Continente há 70 anos), um grupo nervoso de repórteres e curiosos aguardava ansiosamente, entre os passageiros que desciam, o desembarque da grande dama da literatura, a americana que, 35 anos atrás, havia deixado seu país para viver em Paris, tornara-se amiga de Picasso e havia escrito o best-seller Autobiografia de Alice B. Toklas, já na segunda e consagrada edição.

Entre a multidão de lentes, máquinas e jornalistas que se empilhavam no cais, dois amigos americanos – W.C Rogers e Carl Von Vechten – também esperavam; eram eles os responsáveis tanto pelo convite quanto pela organização do périplo de Gertrude Stein e Alice B. Toklas à América, um roteiro que incluía palestras e conferências pelas principais universidades americanas, encontros com intelectuais, entrevistas para jornais, ensaios fotográficos, apresentações em rádio (era o tempo do auge radiofônico) e a presença na encenação da peça Quatro Santos em Três Atos, na Broadway, cuja estreia aconteceria naquele ano.

Como celebridades que eram, Gertrude Stein e Alice B. Toklas haviam pago menos da metade do preço da passagem no Champlain, o the best of dos navios, em uma cabine superluxuosa. Em um livro posterior, Gertrude Stein escreveria:

“Eu sempre havia dito que não voltaria à América enquanto não fosse um verdadeiro leão, uma verdadeira celebridade e, nesta viagem, ainda não imaginava que o fosse”.

Ao descer do navio, falar para os repórteres, dar entrevistas e ser perguntada sobre tudo e sobre todos; depois de ser levada para o Hotel Algonquin, observar os luminosos da Broadway anunciando sua peça; depois de participar do seu primeiro “Radio Broadcasting”, na NBC, Gertrude Stein finalmente pode constatar:

 “Na América todo mundo é, mas alguns são mais do que outros. E eu era mais do que outros”.

A mulher que os repórteres viam desembarcar daquele navio era positivamente incomum: intelectual, artista inovadora e polemista contumaz, Gertrude Stein, além disso, vivia com outra mulher, ostentava um cabelo curtíssimo, grandes paletós e chapéus, no mínimo, desconcertantes. Era, estranhamente, cosmopolita e americana ao mesmo tempo. Se somar-se a isso a frase pela qual ela havia realmente se tornado conhecida (Rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa), ícone do personagem, era inevitável que a pergunta surgisse: afinal, trata-se de um gênio ou de uma impostora? Gertrude Stein nunca mostraria qualquer hesitação quanto a isto:

“Eu não reluto em dizer que sou maior do que Shakespeare. Além disso, ele não está vivo para dizer que é maior que eu. O tempo dirá. Eu sempre tenho algo a dizer e eu gosto de dizer aquilo que digo”.

Neste clima, que mistura provocação e curiosidade, ironia e admiração, a escritora é recebida para sua primeira conferência nos Estados Unidos, no Colony Club, tendo na plateia membros do Museu de Arte Moderna de Nova York. Na sala, entre repórteres desafiadores e intelectuais desconfiados, Gertrude Stein encontra os inimigos perfeitos e, sem um segundo de hesitação ou desconforto, os domina.

Repórter: Miss Stein, por que a senhorita não escreve do jeito que fala?

Gertrude Stein: Ora, e por que você não lê do jeito que eu escrevo?

Se o clima já era tenso, a primeira resposta deixa a plateia ainda mais aturdida. Gertrude Stein, porém, não espera que todos se recomponham para continuar a falar/atirar e dispara, como uma metralhadora.

Gertrude Stein: Pensem em como vocês falam quando não estão escrevendo. Vocês não falam como escrevem. É como as repetições na minha escrita: vocês também repetem muito, mas ao repetir mudam as palavras da mesma forma.

No dia seguinte, a perplexidade está nas matérias dos jornais. O New York Times estampa: “Miss Stein fala para 500 desnorteados”. Nas reportagens escritas sobre o evento, jornalistas de todos os tabloides relatam o quanto aquilo tudo lhes pareceu estranho e perturbador: “Pouco antes da palestra, escreve um, Miss Toklas havia lhes dito ter medo de que ‘os repórteres assustassem Miss Stein’”. Depois de uns poucos minutos, porém, o que se via era outra realidade: “Quem havia assustado os repórteres era ela”, escreveu, completando: “Ninguém gostou mais da entrevista do que Miss Stein, só talvez Miss Toklas”.

Quanto a esta, é retratada como “a secretária e companhia constante; a garota Sexta-feira; a enigmática guarda-costas e tipista; um tipo meio cossaco, sempre sentada silenciosa em um canto, observando, escutando e sorrindo com o canto da boca, parecendo, a alguns, meio nervosa, a outros, meio preocupada mas graciosa”. Mas o que causava uma especial perplexidade àquele grupo de homens-repórteres eram as vestes, particularmente o chapéu de Gertrude Stein, motivo das mais variadas interpretações e leituras. “Parece uma boina de jóquei”, dizia um; “Um chapéu de caçador”, dizia outro; “ Um chapéu de caçador de perdizes”, mais um; “Feito de um tweed cinza delicado, com uma aba que dava uma aparência de esquilo à sua face”, mais outro. Ou então, um comentário mais literário: “Um chapéu-Stein, tão persistente quanto as repetições de sua escrita abstrusa; um chapéu divertido que lhe dá a aparência de ter saltado da floresta de Robin Hood”.

Perguntada sobre o significado daquela peça, Gertrude Stein, no entanto, responderia com singeleza:

Ora, é apenas um chapéu”.

Para quem já havia passado tantos anos deglutindo a frustração de não ver sua obra-prima publicada e reconhecida; para quem, depois de tanto tempo, havia escrito e publicado seu primeiro best-seller, alcançando a fama mundial; para quem, após o sucesso, havia sofrido uma grave crise de identidade – cuja consequência seria uma paralisia criativa –, a súbita celebridade e o reencontro com a América seriam momentos de uma tremenda expansão: como um corpo celeste que, depois de se concentrar em torno de um núcleo denso (o núcleo da personalidade), de repente explodisse, Gertrude Stein espalharia a radiação produzida por esta explosão através de todas as salas, microfones, eventos e entrevistas que realizaria durante estes longos e maravilhosos sete meses.

“Quando as pessoas cansam de algo que entendem, elas têm prazer em procurar algo que não compreendem”

Um simples retrospecto mostra que não foram poucos os lugares nem poucos os eventos: Gertrude Stein chegaria a Nova York em outubro de 34; depois de uma primeira leitura e uma entrevista na NBC, iria para o Leste, visitando a Columbus University, Princetown e a Filadélfia; daí para Chicago, dali para Harvard, Radcliffe, de volta a Nova York, daí para o Meio-Oeste (Minnesotta, Michigan, Indiana), então para Baltimore (sua terra natal), Washington, Massachussets, todo Sul (Charleston, Atlanta, New Orleans), Los Angeles, San Francisco, terminando sua viagem em Oakland, a terra da sua primeira casa, o lugar onde a família Ersland, de The Making Of Americans, foi concebida.

Neste caminho, falaria e seria atentamente ouvida, louvada e ironizada nas principais universidades americanas, de Columbus a Princetown, de Berkeley a Harvard; em Baltimore, receberia a chave da sala de leituras de Edgar Allan Poe (chave que, a partir de então, levaria sempre em seu bolso); na Casa Branca, seria recebida por Eleonora Roosevelt; no Natal de 34, faria uma visita a Scott e Zelda Fitzgerald em Baltimore; e seria recepcionada em Beverly Hills em um encontro que reuniria Dashiel Hammet, Anita Loos e Charlie Chaplin, entre outros notáveis.

Durante o tour, colecionaria um rico repertório de histórias e estranhezas. Em Hollywood, por exemplo, recusaria um convite da Warner Bros para fazer cinema. Isto porque, segundo ela, filmes não eram interessantes:

A coisa boa de nunca ver filmes é que assim se preservam as surpresas. Conferências não destroem as surpresas como o cinema: é sempre uma surpresa que as coisas aconteçam como o autor diz que acontecem”.

Em Harvard, seria considerada trivial, talvez em função de um preconceito diletante-acadêmico, para o qual não há como conciliar opostos como este: um intelectual que se torna uma celebridade. Ao lhe perguntarem como ela, uma autora inovadora e radical, havia se tornado tão popular, ela não teria dúvida em responder:

Quando as pessoas cansam de algo que entendem, elas têm prazer em procurar algo que não compreendem”.

Gertrude Stein havia percebido o que não era assim tão óbvio naquele tempo: no século dos conceitos e das imagens, não basta ser um gênio; de uma forma ou de outra, todo artista tem que se haver com a questão da identidade – e a identidade coloca, para qualquer produtor, criador ou artista, a discussão entre o público e o privado, o anonimato e a celebridade.

É muito bom ser uma celebridade, uma celebridade real que pode decidir quem quer ou não quer encontrar. Então eles vêm ou não vêm como você deseja. Eu nunca imaginei que isto pudesse acontecer comigo, ser uma celebridade assim.

“Eu sempre ia a algum lugar e fazia o que nunca tinha feito antes, indo a algum lugar”

Mas bem ao contrário de tantos outros do seu tempo – e muito diferente de todas as celebridades atuais (mais aceleradas, mais fugazes, imobilizadas por um narcisismo magnético e sem um núcleo que lhes dê consistência) –, a celebridade em Gertrude Stein se manifestaria através de um caminho que, mesmo hoje, seria absolutamente original. A curiosidade em torno dela não seria o resultado de algum filme que houvesse feito, alguma façanha que houvesse executado, alguma ação, ideia política ou científica que tivesse elaborado: ela nasceria, essencialmente, de uma longa e franciscana relação com um lápis, algumas cadernetas e a sua própria consciência, por madrugadas afora, nos intervalos em que esperava Alice dentro dos Fords, nas tardes de Billignin, em uma relação de concentração e revelação com a escrita e consigo mesmo.

A celebridade através da intimidade.

Uma artista indecifrável torna-se, repentinamente, popular.

Suas sentenças ecoam pelas salas e salões de conferência de toda América, estonteantes como jumps muito bem colocados, desconcertantes como só os artifícios verbais muito bem concatenados podem ser. Durante esses meses de conversas, controvérsias, conferências e diálogo, Gertrude Stein desfrutaria do prazer de ser chamada para ir a todo lugar e encontrar todo tipo de pessoa:

Todo mundo me convidava para encontrar alguém e eu ia. Eu sempre ia a algum lugar e fazia o que nunca tinha feito antes, indo a algum lugar”.

Não surpreende que, nesse tempo, Gertrude Stein haja produzido alguns livros voltados para a reflexão, seja sobre a linguagem, sobre o privado e o público, sobre o falar e o escrever, ou sobre o calar e o dizer, em compilações de conferências como Lectures in America, ou em textos escritos como o enigmático How Writing is Write, concebido a partir de uma conferência. Documentados por ela ou registrados da palavra dita para a página, neles veríamos uma outra categoria de inovações ser produzida: é com violência que Gertrude introduz poesia nos textos críticos de reflexão sobre a linguagem; é com delicadeza que acrescenta reflexão científica à poesia. Ao fazer isso, confere mais vitalidade ao substantivo, como diria naquela sua deslumbrante primeira intervenção em Nova York, na qual defenderia com veemência inesperada sua frase sobre a rosa. Como um Dalai Lama, avant-la-lettre, Gertrude Stein cumpriria o papel do poeta em um século muito diferente daquele onde viveram e produziram Shakespeare, Chaucer, Laforgue, Rimbaud, Mallarmé. Gertrude Stein instalaria-se no centro do século 20, em meio à balbúrdia de prédios que se erguiam contorcendo a paisagem, como as curvas abruptas da Guernica de Picasso contorciam a ideia de espécie humana. Ela ocuparia seu lugar em um século onde a ruptura, como destino, e o silêncio, como atitude, haviam perdido o sentido.

A percepção da real grandeza desta diferença entre dois séculos aparentemente tão semelhantes (o impacto destrutivo, moral e social, da Segunda Guerra foi tão grande sobre nós que só conseguimos enxergar o século 20 a partir dela, relegando a um limbo da história o período que transita do século 19 até final dos anos 30) seria aprimorada em um daqueles prazeres que se tornariam uma aventura muito estimulante para Gertrude Stein: as viagens de avião. Em 1934, ela faria seu primeiro voo, saindo de Nova York em direção a cidade que mais amaria na América: Chicago. Ao observar, do alto, os desenhos que o traçado das quadras e dos contornos urbanos faziam, ela escreveria o que viu:

Eu vi as linhas móveis de Masson, as linhas mixadas de Picasso, indo e vindo, completando-se e destruindo-se. Eu vi as soluções simples de Braque. Eu vi as linhas do cubismo, feitas em um tempo onde nenhum pintor ainda havia voado de avião”.

Para Gertrude Stein, a terra, vista do avião (e, desde o primeiro voo, ela sempre preferira os assentos da frente, por onde podia olhar melhor a paisagem) era muito mais esplêndida que a terra vista de um automóvel:

O automóvel é o fim do progresso na terra, ele vai mais rápido, mas as paisagens vistas de um carro são essencialmente as mesmas que aquelas vistas de um trem, de uma carruagem, ou mesmo ao se caminhar”.

Mais que isso: a terra, vista de cima, seria uma prova da diferença entre o século 20 e o século 19. Picasso, mesmo nunca tendo voa-
do de avião, sabia que a terra do seu século era diferente daquela do século anterior. Isto, para ela, confirmava o que já presumia:

O criador é contemporâneo, ele entende o que é contemporâneo quando os seus contemporâneos ainda não entendem, mas, ainda assim, ele é contemporâneo, e como o século 20 é um século que viu a terra como nenhum outro século havia visto, a terra passou a ter um esplendor que nunca havia tido antes, e como neste século tudo se destrói a si mesmo e nada continua, o século 20 tem um esplendor que é apenas seu, e Picasso é deste século, ele tem esta estranha qualidade de uma terra que nunca antes havia sido vista e de coisas sendo destruídas como nunca haviam sido destruídas anteriormente. Assim, Picasso é esplêndido”.

Reforçando com a mesma intensidade esta diferença, não só entre dois séculos mas entre dois continentes – a Europa (do século 19) e a América (do século 20), surgiria um outro ponto de vista, desenvolvido quando Gertrude Stein descreve sobre sua primeira experiência realmente urbana: andar em uma metrópole como a Nova York dos anos trinta, em plena corrida dos arranha-céus, com os prédios cada vez mais altos ocupando a paisagem e ocultando o céu. Ao olhar não mais do alto, mas do solo, a paisagem da América, ela se espantaria:

Eu vejo a sombria figura dos prédios e as solenes figuras mecânicas dançando. Não é delicado, não é suave, não é elegante, mas faz da existência uma coisa real. Não existe céu, existe ar, e isto é o que faz a religião e o deslumbramento e a arquitetura”.

Já nos anos 20, ao lhe pedirem para definir o que era a escultura, ela teria dito que esta era feita de dois instrumentos,alguns suportes e uma boa porção de ar. Alice B. Toklas, por sua vez, diria que os prédios europeus assentavam-se no chão, enquanto os americanos saíam do chão. Gertrude Stein, ao tentar explicar o que era a América aos seus amigos europeus, recorreria a uma definição sintética:

Lá não existe céu, apenas ar. Nos prédios mais antigos vê-se um córnice no topo, mas nos mais novos, não; nestes não haviam córnices no topo – e, afinal, por que deveria haver, por que terminar algo?”.

Mesmo que o assunto fosse o século 19, ou o século 20, América ou Europa, o que estava em questão, o que vinha embutido nas diferenciações que a viagem lhe produzia era, ainda e de novo, porém num estágio diferente, a definição de uma personalidade, a resolução de uma identidade. As duas polaridades estavam dentro dela: Nova York e Billignin, Paris e Allfghenny. Mas isto não parecia lhe causar qualquer tipo de desconforto: Gertrude Stein sempre compreendera muito bem a importância de uma cisão, e das consequências ao mesmo tempo trágicas, inevitáveis, dramáticas e engraçadas, contidas em cada decisão.

Em 1933, um ano antes de viajar, seu amigo Virgil Thompson lhe escreveria, mandando fotos que mostravam seu nome escrito nos luminosos da Broadway. Falaria, também, dos preparativos para a estreia da peça Quatro Santos em Três Atos, que aconteceria em Chicago:

Cara Gertrude: tudo sobre a ópera está tão afinado, mesmo o montante de dinheiro para a produção (ela vai custar dez mil dólares), que a imprensa está fervendo, e as madames de Nova York já encomendaram suas roupas e as reservas de hotel em Chicago. Correm rumores sobre a sua chegada. E acredite: a sua presença é tudo de que precisamos para fazer a ópera perfeita sob todos os aspectos”.

Gertrude Stein não hesitaria: “Eu vim e aqui estou”, escreveria mais tarde. Como César, conquistaria sua Gália – a América. Viria, veria e venceria sua própria insegurança. Ouviria, falaria e seria ouvida pelo país inteiro. Finalmente, uma semana antes de voltar para a Europa, o grande retorno: Gertrude Stein terminaria seu périplo americano em Oakland, o mais próximo de um lar que havia conhecido. E faria isto com a clara intenção de reencontrar aquilo que havia deixado há mais de 30 anos.

Ao visitar os campos da sua infância, entretanto, encontraria algo inesperado. E teria a coragem (quem a tem, na vida, além dos santos?) de admitir dois sentimentos aparentemente contraditórios:

Eu estava lá, de onde eu tinha vindo, as colinas verdes me cercando, colinas que no verão são marrons, aqui e ali um ocasional salgueiro seco, outras vezes um vazio, e uma cerca que não separa, mas que ia por entre as colinas. Eu estava lá e isto me fazia sentir feliz. Aquilo era assim e assim era o que aquilo era. Mas isto, ao mesmo tempo, me incomodava, isto me fazia sentir muito desconfortável com aquilo, não sei porque mas isto me fazia sentir muito desconfortável, sim, de fato, fazia”.

“Eu tive um choque de reconhecimento e não reconhecimento, uma das coisas mais preocupantes na questão da identidade”

Lá não estava lá, ela diria. Em um tempo onde o sentimento de nação, a ideia de país, o fundamento cultural de raiz ocupava o pensamento e a vida de todos – dos intelectuais mais refinados aos revolucionários mais aguerridos (não esqueçamos, estamos no período entre duas guerras) –, Gertrude Stein perceberia algo bastante inquietante sobre isto:

Você pode voltar para onde suas raízes estão e descobrir que elas são menos reais para você do que eram a 6 mil quilômetros de distância”.

No imaginário de Gertrude Stein, não havia lugar para a nostalgia, seja a nostalgia pelo seu próprio passado ou por outro tempo, fosse ele qual fosse – Grécia, Egito, Renascimento, ou, mais eminente, o século 19. Seu tempo seria, definitivamente, o presente. Andando por Nova York, Gertrude Stein sentiria-se absolutamente em casa, achando a vida na metrópole muito parecida com a vida rural de Billingnin:

Você vê as pessoas e elas dizem ‘como vai?’, e você diz ‘como vai?’ para elas”.

Ao entrar em uma loja de frutas, surpreende-se ao ser reconhecida pelo dono: “Como vai, Miss Stein? Está gostando? Deve ser bom retornar à América depois de 20 anos, não?”. Para ela, isto era algo como encontrar um boulangerier em Belley. Mas numa cidade como aquela? Ao ser encarada, em uma ferrovia elevada por alguém que a olha como se a conhecesse há muito tempo, ao olhar para um prédio e ver um luminoso onde se lê: Gertrude Stein chegou, ela escreve:

Eu tive um choque de reconhecimento e não reconhecimento, uma das coisas mais preocupantes na questão da identidade”.

Mas o seu presente também era um presente que mantinha uma suspeição contemplativa em relação ao progresso e à cultura do seu tempo; seu presente era contraditório e paradoxal. No dia em que conhece Charlie Chaplin, conversam sobre a peça Os Quatro Santos. Ela lhe conta que a parte mais excitante da peça era quando nada acontecia. Que santos poderiam, naturalmente não fazer nada. E que, se você fosse um santo, isto seria natural.

Chaplin disse que entendia aquilo. Mas, no fundo, não era verdade. Ele queria o sentimento de movimento inventado por ele mesmo, enquanto eu queria o sentimento de não fazer nada inventado por mim mesma. Cada um de nós gostava muito de falar, mas os dois tinham que parar, ser polidos e deixar o outro dizer alguma coisa”.

Reencontrar a América seria, segundo escreve, uma experiência valiosa. Mas nunca entenderia por que os americanos estavam mais interessados nela do que na sua obra. Não via sentido nisto. Esta, segundo ela, era uma das coisas mais preocupantes sobre a América. E não deixaria de notar, também, uma diferença básica entre europeus e americanos:

Europeus não sabem nada sobre desilusão. Americanos têm muito otimismo porque eles sabem o que é ter desilusão, a terra corre deles, a água corre deles, eles vão embora de tudo e isto não tem fim”.

Einstein chegaria à América, mais exatamente a Princeton, em 1933. Apenas um ano antes de Gertrude Stein. Einstein fugia do nazismo. Gertrude Stein buscava o que havia deixado. O cientista encontraria, na América, “o espírito de camaradagem e o talento para a cooperação” que lhe permitiram viver e lecionar por lá até o fim da sua vida. Gertrude Stein descobriria que lá não existia lá. Ela voltaria à Europa para viver os últimos anos da França do século19 (os anos que antecederiam à guerra) e o tardio início do século 20 naquele país (que se iniciaria com a França de Vichy, ocupada pelos alemães). A um repórter revelaria sua paixão pelo país redescoberto:

Eu voltarei à América um dia. Eu sinto saudades da América. Eu não sabia que era tão bonita. Eu me sinto como um embaixador que estivesse fora por 25 anos e, ao retornar, decidisse casar”.

Mas havia Billignin. E havia, sobretudo, Paris.

Eu gosto de Paris. Eu gosto de seis meses no campo, mas eu gosto de Paris. A América é meu país, mas Paris é a minha cidade natal”.

No dia 4 de maio de 1935, ela embarca no mesmo SS Champlain que a trouxera com destino ao local onde realmente havia nascido, a Paris da Rue de Fleurus.

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