Adriana Sydor, toda prosa

Adriana Sydor

Crônicas
Páginas: 240
Dimensões: 13 x 22cm
ISBN: 978-85-89485-97-5

 

Capa_AdrianaUma das inestimáveis contribuições da internet é a revelação de talentos genuínos que afloram nas redes sociais. Sim, há um aluvião de sandices, há um deserto de ideias coberto pelas ervas daninhas dos preconceitos. É preciso aprender a andar neste terreno para evitar o lixo tóxico da pregação fundamentalista raivosa. Mas vale a pena o garimpo. É raro, raríssimo, mas sempre há a esperança de encontrar uma fonte de expressão original como o blog Mil Compassos de Adriana Sydor.

O nome nos remete à música. A própria autora é muito ligada ao universo musical. E talvez isso explique porque há tanta musicalidade e ritmo em suas narrativas, que é a primeira pegada que nos prende. Texto saboroso, que pode ser lido por ele mesmo, apenas por sua fruição. E todos sabem que quando fazemos um achado desses, é ouro, é a glória. É o prazer que não se quer ver findar.

Ela domina a língua, mestra que é no assunto. E tem autoridade para subverter regras gramaticais pelo prazer criador de domar o léxico e fazê-lo servir ao texto. Claro que certas normas são necessárias para que haja um padrão geral, mas a língua existe para nos servir. Adriana não tem pejo em decretar suas próprias leis, nunca definitivas, e estruturas de linguagem, nunca eternas, para favorecer a comunicação com o leitor.

Lúdica, sempre está a um passo de nova transgressão. Por que uma frase deve começar com letra maiúscula, se a maiúscula parece carregar o peso autoritário que prejudica a fluência gostosa da narrativa? Por que o uso da vírgula é uma obrigação gramatical que não seguida corretamente torna-se imperdoável? E quem disse que trema saiu de moda? Ou que o melhor é o texto clean? Que as frases devem ser curtas e sempre na ordem direta? Os advérbios estão proibidos? Os adjetivos só em doses homeopáticas? Gerúndios nunca? Bem, não apresente uma regra definitiva para Adriana Sydor, ela tratará de transgredi-la.

Ri de tudo o que parece estabelecer um maneirismo de nosso tempo. E faz desfilar episódios, incidentes, reflexões, encontros e desencontros que lhe brotam da realidade ou da imaginação ou de sua realidade imaginária para compor um mundo próprio que nos faz ver a vida com outro olhar. Neste mundo veloz, com um turbilhão de responsabilidades que nos obrigam a pensar e esboçar rostos rígidos, sem alma, ela pousa o olhar em outra dimensão do tempo, capaz de apreender o que já não vemos, o que já não podemos sentir, e nos faz pensar.

Em suas andanças, olha à sua volta e descobre passarinhos, borboletas, flores, árvores, toda uma paisagem que nos passa desapercebida porque nosso olhar e nossa sensibilidade não têm tempo para isso. Senta-se na calçada, num bar ou num banco de praça e ouve histórias que as pessoas querem lhe contar porque já não têm a quem dizer suas vidas.

Ela não faz isso na busca de material para suas crônicas. Não se trata de um método de escritora. Sob essa singeleza transparecem a sensibilidade, o humor, a ironia, mas sobretudo a profunda simpatia de Adriana Sydor pela natureza humana.

Asadriana

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