1894 – Curitiba oblíqua e dissimulada em tempos de revolução

No contexto da proclamação da República que não foi ou da parada militar que pareceu ser, Jesuíno Marcondes foi um dos raros paranaenses com percepção das incoerências insustentáveis do novo regime. Esse que foi o último administrador do Paraná do período monarquista optou pelo exílio na Suíça, após ter sido deposto. A farta correspondência que manteve com familiares e amigos a partir de Genebra espelha uma Curitiba feita de sussurros de famílias desconcertadas com os rumos assumidos pela política local no início da República, especialmente durante a Revolução Federalista.

Nas cartas recebidas pelo Conselheiro, a agitação já se fazia sentir desde meados de 1891. No início de 1893, a invasão do Paraná pelos federalistas vindos do Sul era vista como iminente.

Vicente-Machado-900x280
5 de maio de 1894: retorno triunfal de Vicente Machado

Outros, em meio aos boatos fervilhantes, queriam saber das “coisas futuras” através das cartomantes.

No Palácio do Governo, uma aparente movimentação em favor da defesa da capital se fazia sentir. Vicente Machado, o governador em exercício, reunia-se com o comandante general Pego Jr. em busca de estratégias para a defesa da capital, enquanto avaliavam o avanço federalista.

Foi quando, ingenuamente, o Barão do Serro Azul, acompanhado de uma Comissão formada por diretores da Associação Comercial, foi pedir ao governador que evitasse o derramamento de sangue na capital, a fim de não transformar Curitiba num campo de batalha. Apesar de recebido por Vicente Machado e pelo comandante Pego Jr., a resposta foi de que a cidade não seria poupada enquanto houvesse uma última gota de sangue. Ermelino de Leão, que desde logo viu no ato do Barão uma temeridade, expôs seu temor ao amigo e retirou-se da cidade como o fará Vicente Machado, logo após a fuga do seu valente comandante.

Em janeiro de 1894, o Paraná sente o peso do invasor e os pica-paus curitibanos, com seus lenços brancos, portando armas e posando como quem vai à luta, reúnem-se no Alto do São Francisco para assistir aos efeitos dos tiros de canhões em Tijucas, pequena cidade, nunca lembrada, que resistiu valorosamente a seis dias de cerco dos federalistas. (Acervo Diretoria do Patrimônio Histórico Cultural/FCC)
Em janeiro de 1894, o Paraná sente o peso do invasor e os pica-paus curitibanos, com seus lenços brancos, portando armas e posando como quem vai à luta, reúnem-se no Alto do São Francisco para assistir aos efeitos dos tiros de canhões em Tijucas, pequena cidade, nunca lembrada, que resistiu valorosamente a seis dias de cerco dos federalistas. (Acervo Diretoria do Patrimônio Histórico Cultural/FCC)

E, assim, Curitiba ficou abandonada, contando apenas com patrulhas formadas por cidadãos recrutados pelo Barão.

Dos temores, das arruaças, apenas os registros pessoais dão conta. A imprensa emudeceu. Nem tinha meios para circular. Quem pôde tratou de fugir.

Ainda assim, no dia 20 de janeiro a capital amanheceu em festa. Um mistério a forma como eram organizados tais festejos e recepções.

O retorno a Curitiba do federalista Menezes Dória, permanente opositor de Vicente Machado, já escolhido governador do Paraná, foi apoteótico.

O mesmo não se pode dizer da chegada do almirante Custódio de Mello – o líder da Revolta da Armada –, viajando em um trem especial e ainda não reconhecido pelos curitibanos mais atentos, ou mesmo de Gumercindo Saraiva, que entra na capital paranaense a cavalo e, portanto, sem a imponência de sua condição de comandante e chefe do Exército Revolucionário. Enquanto Dória vai cuidar do palácio, pragmáticos, Saraiva e o almirante convocam, de imediato, o Barão do Serro Azul para uma reunião: impunha-se a instalação de uma Comissão de Empréstimo de Guerra a ser presidida pelo próprio Barão, na qualidade de ocupante do cargo de presidente da Associação Comercial do Paraná, condição para que Curitiba não fosse saqueada.

Assim, Curitiba mantém os ares de capital dos federalistas, título que carregará juntamente com aquele de haver interrompido a marcha dos invasores, seduzindo-os à custa de muitas festas, bailes e missas fúnebres – assistidas pelo exército regular engalanado e maragatos de pés descalços, de oficiais hospedados em palacetes, enquanto Gumercindo Saraiva montou sua barraca numa praça. Esse viés sedutor de Curitiba é apontado por Ângelo Dourado, culto médico baiano, integrante da marcha federalista e braço direito do comandante maragato. O autor de Voluntários do martírio nota que a chegada a Curitiba fora decisiva, contudo, a permanência festiva foi amortecendo os ânimos:

“Tivemos depois um grande baile; a inauguração de um club. Apesar de fugir sempre de festas tive de ir porque fui avisado que nas paredes do club achavam-se cartões de ornamentação tendo cada cartão o nome de um dos salientes revolucionários e que o meu era um dos primeiros (…)  Entre os divertimentos se anunciou um espetáculo de Fantoches. Uma grande cena da Lapa: mata, mata, era o que diziam os bonecos (…) Seguiu-se a grande cena de apoteose. Uma antiga corista de companhia lírica, que aqui dissolveu-se, enrolada num pano branco vara de andaime, onde estava atada uma bandeira já gasta, com a ordem e progresso de pernas para o ar.”

 

Governador federalista Menezes Dória chega à Estação Ferroviária de Curitiba e é recepcionado por uma multidão festiva que não teve medo da chuva ou do sol. (Acervo Diretoria do Patrimônio Histórico Cultural/FCC)
Governador federalista Menezes Dória chega à Estação Ferroviária de Curitiba e é recepcionado por uma multidão festiva que não teve medo da chuva ou do sol. (Acervo Diretoria do Patrimônio Histórico Cultural/FCC)

Em Curitiba, os federalistas foram ficando. Dória chega a mandar cantar um Te Deum “por se achar pacificado o Paraná”. Mais uma cerimônia vã, diz o memorialista, pois “apesar dessa paz as dissensões continuam”. Perspicaz observador esse baiano, que enquanto permaneceu em Curitiba publicava textos literários em A Federação.

Logo a “Esquadra de Papelão” do Marechal Floriano começa a dar sinais de que derrotaria a armada rebelde.

Gumercindo irritado com as rivalidades e com o imobilismo que o tornara refém de Curitiba explode em fuzilamentos.

Para enorme surpresa dos curitibanos, em 25 de março, o jornal A Federação traz a grande nova: o general Cardoso Júnior passa a responder pelo Governo do Estado, enquanto Menezes Dória segue em direção a Paranaguá a fim de embarcar no “Henrique Barroso” rumo a Buenos Aires, “para salvar o empréstimo de guerra”.

Até 24 de abril todas as forças federalistas abandonam Curitiba, ficando apenas Gumercindo Saraiva com disposição para batalha, que marcha rumo a Ponta Grossa, a nova capital dos rebeldes.

Como ficará Curitiba nesse novo vácuo, a saber, até a chegada triunfal de Vicente Machado, em 5 de maio? Sem governo e sem jornais, restam as cartas, as anotações pessoais, os registros dos temores daqueles que ficaram entre quatro paredes, daqueles que sequer ousavam sair às ruas.

Mas já estão em Curitiba muitos dos integrantes das tropas legalistas que tomaram Paranaguá em 1º de maio e que encontraram curitibanos dispostos a preparar novas festas, agora para recepcionar o governador, aliás o vice-governador em exercício, numa festa que deixará a viúva do comendador Araújo indignada:

“Agora vão brigando os que estavam de cima, Lacerda, Vicente e Xavier, a quem a gente do Lacerda quer depor da presidência; este vem com militares e é protegido do Floriano (…) foi assim com Vicente recebido em triunfo, as moças cobrindo-os de flores e creio que com o Vicente coroado por elas! Tudo isto lhe conto para que o Sr. conheça até que ponto chegou o Paraná.”

(Carta de dona Francisca Correia Araújo ao conselheiro Jesuíno Marcondes)

 

Esta foi a festa e o pior a ressaca, agora sob o comando do general Ewerton de Quadros, o Sinistro, e de seu braço direito Joaquim Augusto Freire, aquele que assumiu haver dado a ordem do massacre do km 65, o que é bastante improvável, para ser considerado fruto de uma decisão isolada.

Apenas a documentação íntima para registrar o clima de terror vivido pelas famílias de Curitiba. Nenhum homem saía desacompanhado. Era preciso deixar a casa cercado por todos os familiares, especialmente por muitas mulheres.

À noite, a soldadesca bêbada fazia arruaça diante das casas daqueles que tinham familiares sumariamente presos.

A imprensa volta a circular louvando os libertadores, dedicando páginas aos heróis do Cerco da Lapa. Nunca se falou tanto do general Carneiro.

Circulam notícias de fuzilamentos nas cercanias do cemitério municipal, amigos aconselham o Barão a fugir, mas já é tarde.

O Teatro São Teodoro já está lotado de presos, e a imprensa continua a louvar Carneiro e outros heróis do Cerco da Lapa. Homenagens ao Marechal Floriano ocupam praticamente todas as primeiras páginas do A República, o único jornal em circulação.

Entre os presos do quartel da Rua América o clima é de tocante ingenuidade: todos a aguardar pacificamente um justo julgamento ou preocupados em pedir um ajudante para lavar suas louças, coisa que até então eram obrigados a fazer sozinhos.

É essa a tônica do diário de Balbino Mendonça, que termina na noite do “embarque rumo ao Rio de Janeiro”, expressão que ficou conhecida como sinônimo de desaparecimento sumário.

Mas as festas recomeçam. Uma delas chega a ser perturbada pelo apito inconveniente de um trem noturno.

No dia seguinte, uma nova onda de rumores sinistros toma conta de Curitiba. Mas isso não era novidade, pois desde 1893 Curitiba convivia com os boatos e o silêncio cúmplice.

Alguns corajosos-constrangidos dirigem-se ao Palacete Wolf, onde reina Ewerton de Quadros, para saber do destino dos presos.

Cópia do manuscrito do Diário de Balbino Mendonça, uma das vítimas do fuzilamento do km 65. (Manuscrito cedido à curadoria da mostra 1894. Crise da República)
Cópia do manuscrito do Diário de Balbino Mendonça, uma das vítimas do fuzilamento do km 65. (Manuscrito cedido à curadoria da mostra 1894. Crise da República)

Numa das cartas ao conselheiro Jesuíno Marcondes, a corajosa dona Francisca Araújo relata sua visita ao general Ewerton. Queria ter notícias do irmão Ildefonso Pereira Correia.

“Afiançou-me ele debaixo de sua palavra de honra que tudo é mentira e à minha vista deu ordem para prenderem todos os boateiros. Ainda não ficando bem tranqüila e havendo aí um coronel Marinho que já tinha estado aqui e devia muitas obrigações a Ildefonso dizendo-se muito seu amigo e um pouco nosso, fomos lá e fui pedir-lhe para fazer chegar cartas e roupa às mãos dele visto o terem levado sem coisa alguma. Não posso dizer que ele nos tratasse mal, porém que me pareceu que homem cheio de ódios!”

(Carta ao conselheiro Jesuíno Marcondes)

 

Mas o pior será confirmado por amigos próximos da família Correia. Esses mesmos amigos corajosos que se encarregarão de enterrar precariamente os corpos, no mesmo local onde foram fuzilados, numa missão quase secreta.

A cidade continuará vivendo dias de terror a pretexto de necessária justiça. Tudo como se fora obra e arte do terceiro escalão. E assim aqueles dias passarão para a história. Num primeiro momento, o medo parecia fazer parte do drama das famílias atingidas. Serão necessários muitos fuzilamentos para que grande parte da cidade conheça de perto o medo.

Trecho de carta de dona Francisca Correia Araújo, viúva do conselheiro Araújo (em papel adequado à sua condição), dirigida ao conselheiro Jesuíno Marcondes, então exilado na Suíça. A dor da família do Barão, as intrigas, “a ingratidão, a injustiça do povo de Curitiba”.
Trecho de carta de dona Francisca Correia Araújo, viúva do conselheiro Araújo (em papel adequado à sua condição), dirigida ao conselheiro Jesuíno Marcondes, então exilado na Suíça. A dor da família do Barão, as intrigas, “a ingratidão, a injustiça do povo de Curitiba”.

Apenas a revista Club Coritibano registrará, três meses depois da tragédia de 20 de maio de 1894, o falecimento “do cidadão Ildefonso Pereira Correia”.

Mesmo assim, o Barão será a única das vítimas do km 65 a ter a morte divulgada oficialmente. No mais, silêncio e medo.

O Paraná silencia, enquanto a imprensa do Rio de Janeiro será enfática ao divulgar a série “Dramas do Paraná”, a exemplo de O País, Cidade do Rio. Por sua vez, a revista D. Quixote publica um número especial sobre os fuzilamentos do Paraná e suas vítimas, ilustrado por Ângelo Agostini. Menos contundente, a imprensa paulista também não será indiferente ao tema.

Em Curitiba, as famílias enlutadas ou amedrontadas que tinham posses seguem para as estações de água ou vão se tratar na Marinha.

O medo é percebido, ainda em 1895, pelo silêncio da imprensa local, enquanto o jornal Cidade do Rio anuncia, a 19 de maio de 1895, que o comendador Manoel Francisco Correia manda rezar na Igreja da Glória a missa de um ano de falecimento do Barão.

Em 23 de agosto de 1895 termina oficialmente a Revolução Federalista com a assinatura da chamada Paz de Pelotas, agora no governo Prudente de Moraes, que sucede o Marechal Floriano e inaugura a chamada “política do café com leite”.

Nesse mesmo ano, Vicente Machado elege-se senador, sem livrar-se da sombra de Xavier da Silva. Mas a história soube poupá-lo de maiores responsabilidades.

Apenas em 1937, David Carneiro publicará Os fuzilamentos de 1894, no Paraná, primeiro relato minucioso sobre os crimes ocorridos após a invasão do Paraná, iniciando oficialmente uma corrente favorável à inocência de Vicente Machado e Floriano Peixoto.

Antes do fim do século XIX, o conselheiro Jesuíno Marcondes receberá notícias de Curitiba: novas festas. Agora, os casamentos, especialmente entre primos, serão a alegria das famílias. A vida segue atenuando as certezas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *